O que eu aprendi durante a transição capilar

transição capilar

Existem mudanças que são muito pequenas aos olhos dos outros, mas nós sabemos como elas são capazes de transformar totalmente as nossas vidas. A transição capilar foi uma dessas coisas pra mim.

As vezes me perguntam como foi que comecei a ficar uma pessoa mais “da natureza”, tentar combater o meu vício em compras e tentar reaproveitar tudo. A verdade é que eu sempre fui assim, mas nos últimos anos havia perdido um pouco da minha essência e vivendo uma vida um pouco desregrada. Mas tudo começou a mudar de uns anos pra cá, quando comecei a repensar muitas escolhas que andava fazendo.

Já contei no primeiro post do blog (link aqui) que comecei a mudar a minha relação com o dinheiro e com o tanto de compra que fazia quando fiz o meu intercâmbio em Portugal, no ano de 2014. Coincidentemente, essa foi a mesma época que eu iniciei a minha transição capilar, deixando as químicas alisantes de lado e passando a aceitar a minha verdadeira identidade. Foram períodos que acabaram se coincidindo, eu já estava totalmente decidida a deixar o meu cabelo natural antes de saber que iria morar fora, mas confesso que foi bem mais fácil passar por tudo em um lugar onde ninguém me conhecia.

Alisar o cabelo é algo tão impactante assim?

Antes de descrever a importância de assumir o natural, é preciso entender o que me motivou a alisar. Desde criança eu sempre ODIEI o meu cabelo. Eu não conseguia sair na rua com ele solto, era horrível. Eu me lembro do quanto chegava a ser um castigo o dia de lavar o cabelo e pentear. Eu tinha que sentar na frente do sofá e aguentar a dor de quem não sabe desembaraçar cabelo crespo. Além da dor física, tinha a dor emocional, da humilhação de todas as outras pessoas.

Eu fui ensinada desde pequena que o meu cabelo é ruim, que deveria ter vergonha dele e que não era nem um pouco bonito. Eu cansei de ouvir coisas como “como uma menina com uma pele clara dessa nasce com um cabelo ruim desse?”, ou “o seu pai só serviu pra te dar esse cabelo ruim” e por aí vai.

transição capilar foto 01
Eu criança, em um dos raros momentos que ficava com o cabelo solto.

Antes de transição capilar, vamos falar sobre cabelo ruim

 Quando eu escuto alguém falando “cabelo ruim” ou algo do tipo eu corrijo MESMO! Explico que não é assim que devemos nos referir ao cabelo cacheado e tento ser o mais didática possível, mas as vezes eu confesso que o sangue sobe. Sou bruta assim porque sei muito bem o quanto isso pode machucar quem tem cabelo crespo, principalmente crianças. E não adianta vir falar que está se referindo a “cabelo mal cuidado” porque a gente sabe muito bem que essa expressão sempre foi usada pra cabelo crespo e não mudou de uma hora pra outra.

Eu tenho uma lembrança muito forte de quando eu estava fazendo um alisamento e a cabeleireira tinha 3 filhas crianças, as duas mais velhas tinham os cabelos bem lisos e o da menorzinha, que ainda era um bebê, estava começando a formar cachos. A cabeleireira virou pra filha, enquanto alisava o meu cabelo, e perguntou pra ela: “Filha, o seu cabelo é?” e a menininha – quem nem sabia falar direito – respondeu na mesma hora: “ruim”. Eu aposto que a moça que fez isso com a sua filha não faz ideia do estrago que estava fazendo, mas é exatamente assim que se destrói uma autoestima. Antes mesmo de compreender o mundo, a menina já sabia que carregava um cabelo ruim. É assim que a gente começa a odiar a nossa aparência cada vez mais.

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1 – Foto do meu primeiro alisamento profissional, com 12 anos de idade. 2 – Montagem de fotos que eu usava como fundo do meu Twitter, em 2009, com 15 anos.

 Alisar era doloroso, mas necessário

Alisar o cabelo era muito mais do que uma questão estética. Era uma necessidade para ser aceita na sociedade. Sim, parece exagero, mas só quem passou por isso sabe o peso que cada ida ao salão carregava. Eu me lembro da primeira vez que passei um relaxante no cabelo, só pra “domar os cachinhos”. Eu era criança e minha mãe e minha tia fizeram o processo e acabaram deixando o produto mais tempo do que o permitido. O resultado? Uma bela queimadura no couro cabeludo.

Se eu tivesse parado por aí estaria tudo bem, seria apenas uma lembrança da minha infância. Mas quando tinha 12 anos de idade alisei o cabelo pela primeira vez num salão profissional. Eu saí de lá tão feliz, não acreditava que finalmente tinha um cabelo liso. Cheguei em casa e lembro que entrei em várias comunidades do orkut sobre “cabelo bom”. Troquei todas as fotos do perfil e deixei a Keloane Cabelo Ruim pra trás.

A partir daí, dos 12 aos 19 anos de idade, passei por todos os tipos de químicas que eu encontrava. Guanidina, hidróxido de sódio, amônia, progressiva de cana-de-açúcar (fedia tanto que parecia que eu era o canavial em pessoa), selagens, progressivas de milhões de outras coisas e por aí vai. A gota d’água (ou do esgoto) foi uma selagem louca chamada Fotônica que fui fazer em Brasília. Sim, eu saí de Goiânia só pra ir arrumar o cabelo com esse cabeleireiro Deus do Alisamento. Era um processo que consistia em etapas e em aplicar química em cima da química, que era pro cabelo ficar liso MESMO. No primeiro dia ele relaxava e fazia uma selagem especial 3 dias seguidos com uma luz azul. Eu não podia lavar o cabelo e a selagem era feita por cima da outra.

Gente, pensa num trem FEDIDO FEDIDO FEDIDO. Parecia que eu tinha mergulhado num esgoto. O fedor louco só aparecia quando o cabelo tava molhado, seco não tinha problema. Acontece que ele ficou oleoso de um jeito completamente anormal e eu tinha que lavar todos os dias e nem sempre dava tempo de secar completamente. Nossa, eu passei muita vergonha. As pessoas levantavam no ônibus, eu tinha sempre que ficar longe. Lembro de uma aula de inglês em uma sala minúscula que eu quase matei todo mundo com o meu cabelo.

Depois disso eu prometi pra mim mesma que nunca mais iria me submeter a essas químicas loucas. Fora o perigo que isso era pra saúde. Fiquei 06 meses sem fazer nada e já estava com uma parte considerável de cabelo natural. Só que eu não sabia o que fazer com o cabelo crescendo crespo e as pontas lisas. Aí tive a brilhante ideia de voltar em um salão e pedir ajuda. A moça em garantiu que só ia abrir um pouco os cachos. Assim que começou o processo meu olho começou a arder. Eu tive que ficar numa área externa com ventilador e toalha no rosto e nada fazia parar de arder. Além desse sufoco, perdi o pouco que tinha dos cachos. Saí de lá com muita raiva e jurei que não voltaria em um salão tão cedo. Hoje eu até vou, mas só se tiver certeza que volto com meus cachos inteiros.

A descoberta dos grupos: o paraíso das cacheadas

Coincidentemente, nesse mesmo dia, vi que uma amiga minha participava de um grupo no Facebook chamado “Cacheadas em Transição”. Entrei no grupo e descobri um mundo novo. Era uma verdadeira comunidade voltada ao empoderamento. Aprendi termos novos, como Big Chop (corte que retira toda a química do cabelo), No/Low Poo (técnicas especiais de cuidados) e principalmente, reaprendi a amar cada centímetro de cachinho novo que nascia na minha cabeça e como eu devia cuidar dos fios.

A foto maior, que estou de azul, é do dia exato que cheguei em Lisboa. Cabelo super liso e touca disfarçando a raiz. As outras 4 fotos são de momentos capilares diferentes dos primeiros 5 meses, onde fui cortando aos poucos e cada dia ele estava de um jeito.
A foto maior, que estou de azul, é do dia exato que cheguei em Lisboa. Cabelo super liso e touca disfarçando a raiz. As outras 4 fotos são de momentos capilares diferentes dos primeiros 5 meses, onde fui cortando aos poucos e cada dia ele estava de um jeito.

Quando marquei a viagem eu estava totalmente determinada em voltar com os meus cachinhos. Era uma certeza que até então eu nunca tinha tido na vida e novamente, fiz mais uma promessa para mim mesma: eu não iria deixar meu cabelo em transição estragar nenhum momento. E assim foi. Quando fazia chapinha, já deixei de sair diversas vezes porque o cabelo não estava do jeito que eu achava que deveria estar. Depois de assumir o natural, nunca mais deixei de aproveitar nada. Não é uma mudança estética, mas de mentalidade mesmo.

Com as meninas do grupo aprendi a fazer texturizações e assim pude disfarçar o meu cabelo em transição. Eu dormia com “coquinhos” (bantu knots) na cabeça e quando acordava desfazia tudo e estava com o cabelo totalmente cacheado. Assim, quem me conheceu em Portugal, me conheceu cacheada sem ao menos eu ainda estar. Nem levei chapinha na mala e não fez falta em nenhum dia.

A hora de dizer adeus

Assim que o meu cabelo ia crescendo, eu ia aprendendo a me amar cada vez mais. Cortei algumas vezes nesse período, pra facilitar o processo de texturizar e rancar logo algumas partes da química. Mas um dia, em agosto, 08 meses depois da última química, eu estava sozinha em casa e senti que havia chegado o momento. Fiz o meu big chop, alí, sozinha no banheiro da residência dos intercambistas e senti uma liberdade indescritível.

O sorriso mais verdadeiro do mundo e ao lado, o que restava de cabelo com química.
O sorriso mais verdadeiro do mundo e ao lado, o que restava de cabelo com química.

Eu não me preocupava muito com a definição, saía com o cabelo todo pra cima e me sentindo muito incrível e maravilhosa. Nenhum comentário negativo conseguia me abalar. Nem a cara de susto de quem me via e não sabia que eu ia cortar o cabelo. Confesso que gastei muito tempo dos meus dias arrumando o cabelo, fazendo hidratações e tentando encontrar a melhor forma de finalizar. Mas era uma fase de redescoberta muito gostosa e que me ensinou muito sobre autoestima, confiança e acima de tudo, sobre identidade. Alí, com o cabelo pra cima, totalmente cacheado, era a verdadeira Keloane, que estava escondida o tempo todo nos últimos anos em máscaras dolorosas.

A transição capilar havia chegado ao fim, mas as lições que aprendi são pra vida inteira. Hoje, ando com o meu cabelo solto na maioria dos dias da semana e quando prendo, não é por vergonha, é pra variar mesmo o penteado. Diferentemente da criança que fui, tenho um orgulho gigante do meu DNA e AMO brincar com o meu cabelo. Colocar pro lado, prender, por faixas, pintar, cortar. Tanto é que faço quase tudo em casa porque gosto mesmo e me divirto mudando as madeixas.

Turistando cacheada em Madrid, Bragança e Aveiro
Turistando cacheada em Madrid, Bragança e Aveiro

Ter passado pela transição capilar me fez aprender a não colocar minha energia em coisas negativas, a bloquear comentários maldosos. Me ensinou a importância da autoestima, o quanto é bom a gente se amar assim, exatamente do jeito que a gente é. Hoje sou muito mais confiante e não trocaria absolutamente nada na minha aparência (mentira, eu ainda não gosto de ter tantas espinhas, mas um processo de cada vez). Já fui a diversos eventos mais formais, fui madrinha de casamento e até mesmo colei grau e nunca mais alisei o cabelo. Nem uma escova de brincadeirinha. Estava linda e maravilhosa em todos os lugares com os meus cachos. Não é que eu me tornei contra a escova, pelo contrário, acho legal mudar, mas é que nunca mais senti vontade de fazer uma novamente.

Semana passada foi a minha colação de grau e o pessoal do salão tava pirando no meu cabelo enquanto eu fazia baby liss. Uma até veio comentar comigo que eu tava parando todo o salão com os meus cachos. Eu me lembrei das inúmeras vezes que aguentei cabeleireira falando mal do meu cabelo, reclamando quando ia fazer escova em mim, falando que não gostava de cabelo ruim. Muitas dessas vezes eu era criança e não sabia me defender. Hoje eu só agradeço. Que bom que sou cacheada. Eu me amo, e muito.

Fotos atuais, todas tiradas em no máximo dois meses. Cacheada, feliz e curtindo MUITO!
Fotos atuais (maio/2016), todas tiradas em no máximo dois meses atrás. Cacheada e sendo muito feliz.
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